17.04.06
"E fica todo mundo dizendo que eu não posso me estressar, ficar nervosa, essas coisas. E que o bebê ouve e sente tudo que eu estou sentindo. Eu sei disso. Mas sinceramente, se depender disso, serei uma péssima mãe. Porque eu sei que devia estar tranquila e serena, passando só coisas boas para minha filha. E não acordando às três e meia da manhã para chorar. Então vai ser assim: do útero direto pro divã. Com todo direito de me culpar por tudo."
do blog da Maria Angélica, Bocozices
http://bocozices.blogspot.com
22.02.06
sexta, 18 de novembro - do poeticalha antigo
do blowg, da Marina W.
www.blowg.pixelzine.com.br
"Tenho colada com durex no meu computador uma foto dos meus dez anos. De todas as coisas, todas as poses, os instantâneos, fotos de casamento, festas, flagrantes, é a que mais se parece com quem eu sou. Estou vestida com uma roupa branca de mangas largas, além de comprida, e do pescoço desce um cordão com um crucifixo. Na cabeça, um véu curto e tímido. É minha primeira comunhão. Seguro uma vela do jeito errado, meio tombada pro lado. Na foto estou sozinha, ao lado de um bolo em camadas, como os de casamento. Estou no colégio em que estudei, onde um punhado de freiras andavam com os bolsos cheios de molhos de chaves. Sempre que esqueço quem eu sou, olho essa foto. Um pedaço do meu nome tão comprido é ela, e é o que me traduz.
Quando me vejo assim, tão menina, percebo o quanto é claro que não estou ali, em pé, ao lado do bolo. Me pergunto no que estaria pensando, tão deslocada naquela escola, em que um punhado de freiras fazia listas de todos os pecados que nunca deveríamos cometer. É a foto em que estou mais bonita, de todas que já tirei. Quando a olho, me vem à cabeça sempre a mesma pergunta: o que aquela menina esperava da vida? Com que ela sonhava? De que maneira escondia sua dor? Era feliz? Não lembro. Tudo nela me emociona.
Tantas coisas aconteceriam na vida daquela criança, de olhos constrangedoramente inocentes, mas que, ao mesmo tempo, parecem saber tudo que estava por vir. Às vezes, gosto de olhá-la e é com respeito que faço isto: não posso decepcioná-la, quero fazê-la feliz. Seus olhos são tristes, mas, de uma certa maneira, sábios. Como se tivessem o dom de prever. Eu gosto de ser essa menina do retrato, os olhos tristes, porém vivos, olhando não sei o quê."
Marina W.
10.02.06
"Como todo mundo sabe, eu não vou mais ao cinema, mas abri uma exceção para "2046", dada minha admiração por Wong Kar Wai. Resultado: fiquei com medo, muito medo.
Como todo mundo sabe, o filme é sobre um escritor que, em fins da década de 60 do século passado, mora num quarto de hotel de número 2046 e escreve um livro que se passa em 2046, o ano. Pois quando o filme mostra imagens de 2046, o ano, o futurismo que se vê é um pastiche do pior dos anos 80. Muito cabelão, muito neon, muita ombreira. Uma mistura de "Dallas" com Jean-Jacques Beneix.
Daí o medo. Imaginem se Kar Wai estiver certo e em 2046 tivermos outro revival dos anos 80? Pior: imaginem se Kar Wai estiver certo e o revival dos anos 80 durar até 2046? Vai ter festa Ploc no Maracanã, é isso? Será que a Rosana vai entrar no palco de andador para cantar "Como uma deusa"? Medo."
do blog do João Ximenes Braga, do globo online.