Poeticalha

é pouco mas é de coração
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03.11.06

TERRA_PERMA_LINK 15:46:38, TERRA_CATEGORIES: Poesias do alheio. TERRA_POSTED_BY Fabiano Reis

2 poemas – Leo Gandolfi

"Da tartaruga retirar a tartaruga,
deixá-la ser apenas a não tartaruga.
Chove. As gotas molhariam seu atraso.
Eis o primeiro ciclo, o da falta.
A chuva insiste, toca as telhas de amianto.
A casa está fechada e quem está lá dentro
é a continuação da chuva e do amianto.
Esse o segundo ciclo, o do gesto.
Junto da casa um quintal. Ainda não.
Quem sabe quando a chuva parar de insistir
eu compreenda as regras da perspectiva.
O que se retirara retorna. Silêncio.
À tartaruga chega-se por paciência.
Terceiro ciclo, o das coisas repetidas. "

[do livro No entanto d'água, 7Letras, 2006]


"Pausa e peixes. Mover-se em relação
ao que se move permanece imóvel.
Muda o registro, árvores mais pássaros
igual talvez a casa menos chuva.
Muda outra vez: a mesma marianne moore
– que traduziu até algumas fábulas
de la fontaine – ao ler o verso abaixo:
where there is personal liking we go.
Sim, hoje marianne, amanhã jacob
e assim seguindo, sob a mesma chuva,
de nome em nome até tocar o chão,
i.e., até que cicatriz alguma
possa impedir que homônimos raquel,
lia e filhos estejam entre os seus. "

[do livro No entanto d'água, 7Letras, 2006]
TERRA_COMMENTS (4)

09.05.06

TERRA_PERMA_LINK 21:42:10, TERRA_CATEGORIES: Poesias do alheio. TERRA_POSTED_BY Fabiano Reis

Manoel de Barros, sempre

1.

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.

Nesse ponto sou abastado.

Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.

Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas,

que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,

que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.

Perdoai.

Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso renovar o homem usando borboletas. 

2.

Remexo com um pedacinho de arame nas minhas memórias fósseis.

Tem por lá um menino a brincar no terreiro:

entre conchas, osso de arara, pedaços de pote,

sabugos, asas de caçarolas etc.

E tem um carrinho de bruços no meio do terreiro.

O menino cangava dois sapos e os botava a puxar o carrinho.

Faz de conta que ele carregava areia e pedras no seu caminhão.

O menino também puxava, nos becos de sua aldeia, por um barbante sujo

umas latas tristes.

Era sempre um barbante sujo.

Eram sempre umas latas tristes.

O menino é hoje um homem douto que trata com física quântica.

Mas tem nostalgia das latas.

Tem saudades de puxar por um barbante sujo

umas latas tristes.

Aos parentes que ficaram na aldeia esse homem douto

encomendou uma árvore torta ---

Para caber nos seus passarinhos.

De tarde os passarinhos fazem árvore nele.

3.

A gente se negava corromper-se aos bons costumes.

A gente examinava a racha dura das lagartixas.

Só para brincar de ciência.

A gente grosava a peça dos morcegos com o lado cego das facas.

Só para vê-los chiar com mais entusiasmo.

Fazíamos meninagem com as priminhas à sombra das bananeiras,

debaixo dos laranjais.

Só de homenagem ao nosso Casimiro de Abreu.

Não era mister de ser versado em Kant pra se saber que os passarinhos

da mesma plumagem

voam juntos.

Nem era preciso ser versado em Darwin pra se saber que os carrapichos

não pregam no vento.

Que, apois:

Sábio não é o homerm que inventou a primeira bomba atômica.

Sábio é o menino que inventou a primeira lagartixa.

4.

Aprendo com abelhas do que com aeroplanos.

É um olhar para baixo que eu nasci tendo.

É um olhar para o ser menor, para o

insignificante que eu me criei tendo.

O ser que na sociedade é chutado como uma

barata --- cresce de importância para o meu olho.

Ainda não entendi por que herdei esse olhar para baixo.

Sempre imagino que venha de ancestralidades machucadas.

Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão ---

Antes das coisas celestiais.

Pessoas pertencidas de abandono me comovem:

tanto quantos as soberbas coisas ínfimas.

5.

Uso um deformante para a voz.

Em mim funciona um forte encanto a tontos.

Sou capaz de inventar uma tarde a partir de uma garça.

Sou capaz de inventar um lagarto a partir de uma pedra.

Tenho um senso apurado de irresponsabilidades.

Não sei de tudo quase sempre quanto nunca.

Experimento o gozo de criar.

Experimento o gozo de Deus.

Faço vaginação com palavras até meu retrato aparecer.

Apareço de costas.

Preciso de atingir a escuridão com clareza.

Tenho de laspear verbo por verbo até alcançar o meu aspro.

Palavras têm que adoecer de mim para que se tornem mais saudáveis.

Vou sendo incorporado pelas formas pelos cheiros pelo som

pelas cores.

Deambulo aos esgarços.

Vou deixando pedaços de mim no cisco.

O cisco tem agora para mim uma importância

de Catedral.

TERRA_COMMENTS (2)

18.04.06

TERRA_PERMA_LINK 13:29:48, TERRA_CATEGORIES: Poesias do alheio. TERRA_POSTED_BY Fabiano Reis

um poema de amor

todas as mulheres

todos os beijos delas

as formas variadas como amam

e falam e carecem.

suas orelhas

elas todas tem orelhas

e gargantas e vestidos

e sapatos e automóveis

e ex-maridos

principalmente as mulheres são muito quentes

elas me lembram a torrada amanteigada

com a manteiga derretida nela.

há uma aparência no olho:

elas foram tomadas, foram enganadas

não sei mesmo o que fazer por elas.

sou um bom cozinheiro, um bom ouvinte

mas nunca aprendi a dançar - eu estava ocupado

com coisas maiores

mas gostei das camas variadas

lá delas

fumar um cigarro

olhando pro teto

não fui nocivo nem desonesto.

só um aprendiz.

sei que todas têm pés e cruzam descalças pelo assoalho

enquanto observo suas tímidas bundas na penumbra.

sei que gostam de mim.

algumas até me amam

mas eu amo só umas

poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;

outras falam mansamente da infância e pais e paisagens;

algumas são quase malucas

mas nenhuma delas é desprovida de sentido;

algumas amam bem, outras nem tanto;

as melhores no sexo nem sempre são as melhores em outras coisas;

todas têm limites

como eu tenho limite

e nos aprendemos rapidamente.

todas as mulheres, todas as mulheres

todos os quartos de dormir

os tapetes as fotos as cortinas

tudo mais ou menos

como uma igreja

só raramente se ouve uma risada

essas orelhas

esses braços

esses cotovelos

esses olhos olhando

o afeto e a carência

me sustentaram

me sustentaram.

Charles Bukowsky

TERRA_COMMENTS (0)

29.03.06

TERRA_PERMA_LINK 12:14:24, TERRA_CATEGORIES: Poesias do alheio. TERRA_POSTED_BY Fabiano Reis

Publico aqui o poema completo que o Pedro Bial falou um pedacinho ontem na final do BBB6. É do Paulo Henriques Britto, Poeta, Tradutor e Professor da PUC-RJ. O poema está no livro Macau, vencedor do prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2004. O título do poema foi sugestão do meu, do seu, do nosso grande Chacal.

"Biodiversidade"

Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,

que não requerem prática, oficina, suor.

maneiras mais simpáticas de pagar mico

e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor

 

Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,

como há quem não se vexe de ler e decifrar

essas palavras bestas estrebuchando inúteis,

cágados com as quatro patas viradas pro ar.

 

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,

de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,

do outro lado da linha formigando de estática,

dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,

 

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,

incapazes de reassumir a posição natural,

não são na verdade uma outra forma de vida,

tipo um ramo alternativo do reino animal?

 

TERRA_COMMENTS (4)

23.03.06

TERRA_PERMA_LINK 10:56:57, TERRA_CATEGORIES: Poesias do alheio. TERRA_POSTED_BY Fabiano Reis

A fruta na mesa cansa os olhos até apodrecer

tira a fruta

a mesa cansa os olhos

tira a mesa

a cadeira

a casa

feche a janela

mude a paisagem

mas tudo cansa

tire os olhos.

Moacir Amâncio, Objeto útil, Iluminuras, 1992 ( do blog da Virna )

Meu coração, seu coração

dor e pena

e raiva, tão antiga

condensada:

coágulo e pedras

cerca de espinhos

zona de fronteira

extracorpórea

hipóxia

abuso

all you need is love

ninguém vê

seu coração

meu coração.

Virna Teixeira, poetisa e tradutora, São Paulo

http://papelderascunho.net

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