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15:46:38, TERRA_CATEGORIES: Poesias do alheio. TERRA_POSTED_BY Fabiano Reis
21:42:10, TERRA_CATEGORIES: Poesias do alheio. TERRA_POSTED_BY Fabiano Reis1.
A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
2.
Remexo com um pedacinho de arame nas minhas memórias fósseis.
Tem por lá um menino a brincar no terreiro:
entre conchas, osso de arara, pedaços de pote,
sabugos, asas de caçarolas etc.
E tem um carrinho de bruços no meio do terreiro.
O menino cangava dois sapos e os botava a puxar o carrinho.
Faz de conta que ele carregava areia e pedras no seu caminhão.
O menino também puxava, nos becos de sua aldeia, por um barbante sujo
umas latas tristes.
Era sempre um barbante sujo.
Eram sempre umas latas tristes.
O menino é hoje um homem douto que trata com física quântica.
Mas tem nostalgia das latas.
Tem saudades de puxar por um barbante sujo
umas latas tristes.
Aos parentes que ficaram na aldeia esse homem douto
encomendou uma árvore torta ---
Para caber nos seus passarinhos.
De tarde os passarinhos fazem árvore nele.
3.
A gente se negava corromper-se aos bons costumes.
A gente examinava a racha dura das lagartixas.
Só para brincar de ciência.
A gente grosava a peça dos morcegos com o lado cego das facas.
Só para vê-los chiar com mais entusiasmo.
Fazíamos meninagem com as priminhas à sombra das bananeiras,
debaixo dos laranjais.
Só de homenagem ao nosso Casimiro de Abreu.
Não era mister de ser versado em Kant pra se saber que os passarinhos
da mesma plumagem
voam juntos.
Nem era preciso ser versado em Darwin pra se saber que os carrapichos
não pregam no vento.
Que, apois:
Sábio não é o homerm que inventou a primeira bomba atômica.
Sábio é o menino que inventou a primeira lagartixa.
4.
Aprendo com abelhas do que com aeroplanos.
É um olhar para baixo que eu nasci tendo.
É um olhar para o ser menor, para o
insignificante que eu me criei tendo.
O ser que na sociedade é chutado como uma
barata --- cresce de importância para o meu olho.
Ainda não entendi por que herdei esse olhar para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão ---
Antes das coisas celestiais.
Pessoas pertencidas de abandono me comovem:
tanto quantos as soberbas coisas ínfimas.
5.
Uso um deformante para a voz.
Em mim funciona um forte encanto a tontos.
Sou capaz de inventar uma tarde a partir de uma garça.
Sou capaz de inventar um lagarto a partir de uma pedra.
Tenho um senso apurado de irresponsabilidades.
Não sei de tudo quase sempre quanto nunca.
Experimento o gozo de criar.
Experimento o gozo de Deus.
Faço vaginação com palavras até meu retrato aparecer.
Apareço de costas.
Preciso de atingir a escuridão com clareza.
Tenho de laspear verbo por verbo até alcançar o meu aspro.
Palavras têm que adoecer de mim para que se tornem mais saudáveis.
Vou sendo incorporado pelas formas pelos cheiros pelo som
pelas cores.
Deambulo aos esgarços.
Vou deixando pedaços de mim no cisco.
O cisco tem agora para mim uma importância
de Catedral.
13:29:48, TERRA_CATEGORIES: Poesias do alheio. TERRA_POSTED_BY Fabiano Reistodas as mulheres
todos os beijos delas
as formas variadas como amam
e falam e carecem.
suas orelhas
elas todas tem orelhas
e gargantas e vestidos
e sapatos e automóveis
e ex-maridos
principalmente as mulheres são muito quentes
elas me lembram a torrada amanteigada
com a manteiga derretida nela.
há uma aparência no olho:
elas foram tomadas, foram enganadas
não sei mesmo o que fazer por elas.
sou um bom cozinheiro, um bom ouvinte
mas nunca aprendi a dançar - eu estava ocupado
com coisas maiores
mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto
não fui nocivo nem desonesto.
só um aprendiz.
sei que todas têm pés e cruzam descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na penumbra.
sei que gostam de mim.
algumas até me amam
mas eu amo só umas
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da infância e pais e paisagens;
algumas são quase malucas
mas nenhuma delas é desprovida de sentido;
algumas amam bem, outras nem tanto;
as melhores no sexo nem sempre são as melhores em outras coisas;
todas têm limites
como eu tenho limite
e nos aprendemos rapidamente.
todas as mulheres, todas as mulheres
todos os quartos de dormir
os tapetes as fotos as cortinas
tudo mais ou menos
como uma igreja
só raramente se ouve uma risada
essas orelhas
esses braços
esses cotovelos
esses olhos olhando
o afeto e a carência
me sustentaram
me sustentaram.
Charles Bukowsky
12:14:24, TERRA_CATEGORIES: Poesias do alheio. TERRA_POSTED_BY Fabiano ReisPublico aqui o poema completo que o Pedro Bial falou um pedacinho ontem na final do BBB6. É do Paulo Henriques Britto, Poeta, Tradutor e Professor da PUC-RJ. O poema está no livro Macau, vencedor do prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2004. O título do poema foi sugestão do meu, do seu, do nosso grande Chacal.
"Biodiversidade"
Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor
Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.
Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,
câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?
10:56:57, TERRA_CATEGORIES: Poesias do alheio. TERRA_POSTED_BY Fabiano ReisA fruta na mesa cansa os olhos até apodrecer
tira a fruta
a mesa cansa os olhos
tira a mesa
a cadeira
a casa
feche a janela
mude a paisagem
mas tudo cansa
tire os olhos.
Moacir Amâncio, Objeto útil, Iluminuras, 1992 ( do blog da Virna )
Meu coração, seu coração
dor e pena
e raiva, tão antiga
condensada:
coágulo e pedras
cerca de espinhos
zona de fronteira
extracorpórea
hipóxia
abuso
all you need is love
ninguém vê
seu coração
meu coração.
Virna Teixeira, poetisa e tradutora, São Paulo