Poeticalha

é pouco mas é de coração
TERRA_CREATE4FREE
Calendário
    <  Novembro 2006  >
    S T Q Q S S D
        1 2 3 4 5
    6 7 8 9 10 11 12
    13 14 15 16 17 18 19
    20 21 22 23 24 25 26
    27 28 29 30      
TERRA_ARCHIVES
TERRA_LINKS
TERRA_SYNDICATE
TERRA_HOM_TERRABLOG

27.11.06

TERRA_PERMA_LINK 18:26:32, TERRA_CATEGORIES: Dos meus escritos. TERRA_POSTED_BY Fabiano Reis

Das coisas que vêm, das coisas que vão.

Meu avô morreu.
E com ele levou uma boa parte de lembranças da minha infância.

Newton Reis era uma figura polêmica. Reclamava muito, de tudo. Mas era adorável. Um dos melhores papos que já vi, e é claro, fica aquela sensação de por que eu não aproveitei melhor isso. Vem dele o meu gosto pelas viagens, por que o que eu mais me lembro é das suas viagens intermináveis a trabalho, pelo Brasil todo. E ia eu e meu pai no Galeão, buscá-lo, e eu ficava fascinado com aquilo tudo, e eu ficava olhando pra ver de qual avião ele ia descer, e eu tinha orgulho dele, que vinha do céu, e ileso. Me falava sempre das luzes de Natal, quando se descia na cidade, e eu ficava imaginando uma grande cidade de papai Noel, vejam só vcs.

Newton Reis era uma figura polêmica. Enlouquecia os funcionários da padaria Lêda ( Nota da Redação: Padaria no Pé Pequeno, Santa Rosa, Niterói, que até hoje faz os melhores pães da cidade, e a melhor empada também ) com seu detalhismo na hora de escolher pães. Mas cultivava rosas. E ai de quem chegasse perto daquela roseira, tão emprenhada na minha infância que às vezes eu sinto até o cheiro dela.

Meu avô que comprava meus gibis. E vcs sabem no que isso deu. 

E me dava mesada também. Quando eu comecei a trabalhar, fui falar com meus pais que ele não precisava mais me dar, mas eles falaram que isso ia ser uma ofensa gravíssima. Aí eu recebia e dava minha parte pro meu irmão.

Newton Reis era uma figura polêmica. Morou anos em Brasília, a trabalho, e nas vezes que ia de ônibus pra lá comprava as duas cadeiras, pra ir sem ninguém ao lado enchendo o saco. E falava isso sem vergonha nenhuma. Agora me diz você uma coisa: Quantas vezes você também pensou em fazer isso?

Fez de tudo pra eu aprender um instrumento. Quando eu era moleque, comprou um violão pra mim. E me dava lps do Dilermando Reis, o melhor violonista do Brasil, segundo ele. Há pouco tempo, fui numa loja pra orçar uma reforma , aí o vendedor me disse que valeria mais a pena comprar um novo. Que o preço que eu ia pagar pra reformá-lo comprava um zero e ainda sobrava um troco. É claro que eu não dei ouvidos e mandei consertar. É um som diferente que sai dali, saca.

Me levava no “ladodelá” uma grande mistura de lojas, açougue, peixaria, quitanda, entre árvores, patos e macacos, ali na esquina das ruas Paulo César, Geraldo Martins e Presidente Backer ( Onde hoje é a Pracinha de Santa Rosa ). Outro dia eu fui lá e tentei lembrar qual árvore eu gostava de subir, e pela localização acho que ela não está mais lá. "Lado de Lá". Onde eu brincava feliz na minha infância, onde ter avôs era a melhor coisa do mundo, e comer uma cocada já era motivo suficiente de realização pessoal. Onde a Nina vai passear também, com o vovô dela.

Meu avô morreu. Me deixou um pai maravilhoso, o gosto pelas viagens e pelas rosas, o amor pelo Pé Pequeno.

E quando leio gibis, como cocadas, e ando pelas ruas com nomes de cidades do interior do estado do Rio de Janeiro, no pequeno bairro dentro de Santa Rosa, me lembro dele. Ainda não conheço Natal. Mas quando for, reservem um lugar pra mim na melhor das janelas, por favor.

Meu avô morreu, e na mesma semana, meu grande amigo do sorriso-largo-e-coração-infinito Bruno Porto se mudou pra China.

Duas perdas, tão diferentes e tão iguais. Duas voltas pra Niterói chorando pela ponte. Saudades. Que fazem chorar e sorrir.

Na semana seguinte nasceu a Nina.
E eu entendi tudo.

TERRA_COMMENTS (3)

03.11.06

TERRA_PERMA_LINK 15:46:38, TERRA_CATEGORIES: Poesias do alheio. TERRA_POSTED_BY Fabiano Reis

2 poemas – Leo Gandolfi

"Da tartaruga retirar a tartaruga,
deixá-la ser apenas a não tartaruga.
Chove. As gotas molhariam seu atraso.
Eis o primeiro ciclo, o da falta.
A chuva insiste, toca as telhas de amianto.
A casa está fechada e quem está lá dentro
é a continuação da chuva e do amianto.
Esse o segundo ciclo, o do gesto.
Junto da casa um quintal. Ainda não.
Quem sabe quando a chuva parar de insistir
eu compreenda as regras da perspectiva.
O que se retirara retorna. Silêncio.
À tartaruga chega-se por paciência.
Terceiro ciclo, o das coisas repetidas. "

[do livro No entanto d'água, 7Letras, 2006]


"Pausa e peixes. Mover-se em relação
ao que se move permanece imóvel.
Muda o registro, árvores mais pássaros
igual talvez a casa menos chuva.
Muda outra vez: a mesma marianne moore
– que traduziu até algumas fábulas
de la fontaine – ao ler o verso abaixo:
where there is personal liking we go.
Sim, hoje marianne, amanhã jacob
e assim seguindo, sob a mesma chuva,
de nome em nome até tocar o chão,
i.e., até que cicatriz alguma
possa impedir que homônimos raquel,
lia e filhos estejam entre os seus. "

[do livro No entanto d'água, 7Letras, 2006]
TERRA_COMMENTS (4)

01.11.06

TERRA_PERMA_LINK 17:31:43, TERRA_CATEGORIES: Nina. TERRA_POSTED_BY Fabiano Reis

Dona Carmen

A minha sogra está "morando" lá em casa, por conta da Nina. E, acreditem, isso é muito bom. Claro que teve uma certa negociação, tipo: A senhora vai ter que fazer tudo o que eu gostava na época de namoro com sua filha ( leia-se: o sensacional pavê de bombom, o bolo de cenoura, a "macarronese", o kibe indescritível, melhor que o da Galeria Menescal, e otras cosítas más ). Sim, uma contrapartida.

Sim, eu já ganhei uns 4 quilos por conta disso também.

Dona Carmem. Ela é quase uma segunda mãe. Faz tudo o que preciso com prazer, disposição e boníssima vontade. Pra quem conhece Aline, tirem por ela. 

Minha sogra é daquelas figuras populares em seu prédio, rua e bairro. É a rainha da Moreira César. Sabe onde conserta tudo, onde tem o melhor preço, cumprimenta todo mundo, em toda a extensão da rua. Eu sempre brinco que se ela morasse em Parati, teria aquele azulejo na porta ( indicando os moradores antigos e queridos ) escrito "Casa da Dona Carminha".

Minha sogra não conhece Parati. Mas vai conhecer, com Nina.

TERRA_COMMENTS (5)